terça-feira, 7 de outubro de 2008

Ônus da democracia

"Nem a mais branda das ditaduras é melhor que a pior das democracias", foi o que me disse a jornalista Linda Bulik enquanto conversávamos sobre as eleições municipais de Londrina.

Depois de longos anos na história do Brasil, diante do autoritarismo de um governo militar, o país parece ainda sofrer com as consequências da interrupção do direito ao voto durante o sombrio período de nossa história. Durante muito tempo o voto foi negado sob a alegação da "Lei da Segurança Nacional". Estávamos sobre o julgo do perigo da comunização, principalmente nas grandes cidades, onde foram decretadas eleições indiretas.

Durante a ditadura militar, Londrina se tornou a mais importante cidade paranaense, onde ainda eram realizadas eleições para prefeito e vereadores (Curitiba esteve nesse período sobre intervenção Federal).

Algumas lendas (ainda atuantes) da política londrinense, e até mesmo paranaense, surgiram nesse período. Antônio Casemiro Belinati foi um desses.

O fenômeno Belinati surgiu das camadas populares ainda em 1969, quando se tornou vereador pela primeira vez de Londrina. Em pouco tempo, Belinati (MDB) se tornou deputado, e de forma impressionante, ganhou a eleição municipal de 1976, assumindo pela primeira vez a prefeitura da cidade. Entretanto, depois de mais de 30 anos, qual o segredo para a conquista de tantos votos, mesmo após as inúmeras denuncias de corrupção que consumiram a câmara de vereadores de Londrina?

O ex-prefeito e, agora candidato favorito das massas londrinenses é o "retrato" do que a de pior na história da corrupção em Londrina. São escândalos, processos, denuncias e até uma cassação de mandato de pesa contra o candidato a prefeitura.

Por que Belinati conseguiria angariar tantos votos assim? A história do Brasil nos fornece a resposta.

Somos o país do populismo. Nossos mais emblemáticos líderes (podemos lembrar de Getúlio Vargas) são populistas e, com o Belinati, não seria diferente. O populismo está em seus atos, em seu discurso, em suas ações.

O número de votos angariados pelo político é o resultado de obras faraônicas que levaram prejuízos aos cofres públicos durante os mandatos anteriores. Não é uma questão de menosprezar as obras realizadas pelo ex-prefeito, mas o modo como elas foram relizadas. Uma de suas principais obras, e talvez, a que mais trouxe retorno em votos ao candidato, foi a construção do chamado 5 conjuntos, que acabou com muitas favelas que existiam na cidade e, ao mesmo tempo contraiu onerosas contas e prejuízos aos cofres públicos.

Os prejuízos deixados por Belinati para Londrina e para as outras gestões municipais, não provêm somente das onerosas obras mas, também, dos episódios de corrupção ativa e passiva dos quais participou o ex-prefeito. Me espanta após tantas propagandas que estimulam o voto consciente e reponsável, um ex-prefeito cassado receber absurda quantidade de votos de um povo que diz querer findar as crises de corrupção que assolam o cenário político municipal.

Me espanta o candidato responder tão naturalmente a pergunta de uma jornalista quando questionado se pretende combater a corrupção (aquela mesma pela qual foi cassado).

"Nem a mais branda das ditaduras é melhor que a pior das democracias". Mas, também lembro que democracias podem se transformar em ditaduras quando estamos sujeitos ao despreparo da população em escolher verdadeiros líderes. Somos não mais vítimas do governo, mas da população. A ditadura da democracia.

Nenhum comentário: