terça-feira, 22 de abril de 2008

Os navios no tempo do descobrimento

22 de abril de 1500. Ao todo foram 44 dias até que a frota de Pedro Álvares Cabral vislumbrasse terra firme. No post de hoje vou fugir do convencional e não vou contar a história do 'descobrimento' do Brasil. A seguir estão trechos do artigo do historiador Paulo Miceli que nos conta um pouco da história da vida nos navios nos tempos do descobrimento.


"O amanhecer no navio, assim como na cidade, podia ser anunciado pelo canto de um galo das capoeiras do capitão, do piloto, do mestre ou do contramestre.
[...]
Quando a viagem transcorria sem incidentes, a comida mal bastva para as necessidades dos embarcados, mas se um longo período de calmaria, a impérícia do piloto ou qualquer outra ocorrência provocassem o alongamento da viagem, a fome atingia o navio de modo implacável.
[...]
(Observe o relato de um viajante que deixava o Brasil em uma viagem de volta à Europa)

"a 12 desse mesmo mês (maio), o nosso artilheiro morreu de fome, depois de ter comido as tripas cruas de seu papagaio, e foi como os outros lançado ao mar. Pouco sentimos sua falta, pois estávamos tão extenuados que daríamos graças a Deus caso fôssemos apresados por qualquer pirata que nos desse de comer. Mas Deus quis afligir-nos durante toda a viagem de regresso e somente um navio foi por nós avistado, mas não nos pudemos aproximar porquantoa nossa fraqueza nos impedia de erguer velas. Nessas alturas, vindo a faltarem as rodelas e até os couros da cobertura dos baús, e tudo mais que no navio podia alimentar-nos, pensamos ter chegado ao termo de nossa viagem. Mas a necessidade que tudo inventa, lembrou a alguns a caça aos ratos e ratazanas que, também mortos de fome por lhe termos tirado tudo que pudesse roer, corriam pelo navio em grande quantidade. (...) Tivemos que cozinhar camundongos na água do mar, com intestinos e tripas, e dava-se a estas vísceras maior apreço do que ordinariamente damos em terra a lombos de carneiro." E Léry (o viajante que nos conta essa história) chegou a acrescentar que os sobreviventes só não praticaram o canibalismo por "temor a Deus, pois mal podíamos falar uns com os outros sem nos agastarmos e o que era pior (perdoe-me Deus) sem nos lançarmos olhares denunciadores de nossa disposição antropofágica.""


Quer mais?


MICELI, Paulo. Dia após dia.... O ponto onde estamos : viagens e viajantes na história da expansão e da conquista (Portugal, séculos XV e XVI). 2ª ed. Campinas : Unicamp, 1997.


Abraços.

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